stardos e bastardos-netos, compreendeu
exatamente o que o pai quis dizer.
Lorde Walder tinha noventa anos, uma mirrada fuinha cor-
de-rosa de cabeça calva e manchada, demasiado artrítico para
se erguer sem ajuda. A última esposa, uma moça pálida e
delicada de dezesseis anos, caminhou ao lado da sua liteira
quando o trouxeram para o salão. Era a oitava Senhora Frey.
- E um grande prazer voltar a vê-lo depois de tanto tempo,
senhor - disse Catelyn. O velho a olhou de soslaio com uma
expressão de suspeita.
- Ah é? Duvido. Poupe-me das suas palavras doces, Senhora
Catelyn, sou velho demais. Por que está aqui? Será o seu
rapaz orgulhoso demais para vir ele próprio apresentar-se?
Que farei eu com a senhora?
Catelyn era uma menina da última vez que visitara as
Gêmeas, mas já então Lorde Frey era irascível, tinha uma
língua aguçada e maneiras bruscas. A idade o tinha tornado
pior que nunca, ao que parecia. Precisaria escolher as
palavras com cuidado e fazer o possível para não se ofender
com as dele.
- Pai - disse Sor Stevron em tom reprovador -, atente ao
gênio. A Senhora Stark está aqui a nosso convite.
- Perguntei-lhe alguma coisa? Ainda não é Lorde Frey, e não
o será até que eu morra. Pareço--lhe morto? Não ouvirei
instruções vindas de você.
- Isso não é maneira de falar na frente de nossa nobre
convidada, pai - disse um dos filhos mais novos.
- Agora meus bastardos acham-se no direito de me dar lições
de cortesia - queixou-se Lorde Walder. - Falarei como bem
entender, malditos. Já hospedei três reis ao longo da minha
vida, e rainhas também, julga que preciso de lições de gente
como você, Ryger? Sua mãe ordenhava cabras da primeira
vez que lhe dei minha semente - rechaçou o jovem corado com
um movimento súbito de dedos e fez um gesto para dois de
seus outros filhos. - Danwell, Whalen, ajudem-me a sentar na
cadeira.
Ergueram Lorde Walder da liteira e o transportaram para o
cadeirão dos Frey, uma cadeira elevada de carvalho negro,
cujo espaldar estava esculpido como duas torres ligadas por
uma ponte. A jovem esposa subiu timidamente para junto
dele e cobriu-lhe as pernas com uma manta. Depois de se
sentar, o velho acenou para que Catelyn se aproximasse e
deu-lhe um beijo na mão, seco como papel.
- Pronto - anunciou. - Agora que observei a cortesia, senhora,
talvez meus filhos me dêem a honra de calar a boca. Por que
está aqui?
- Para lhe pedir para abrir os portões, senhor - respondeu
Catelyn polidamente. - Meu filho e os senhores seus vassalos
estão muito impacientes para atravessar o rio e prosseguir
caminho.
- Para Correrrio? - soltou um risinho abafado. - Ah, não é
preciso dizer, não é preciso. Ainda não sou cego. O velho
ainda consegue ler um mapa.
- Para Correrrio - confirmou Catelyn. Não via motivo para
negar. - Onde teria esperado encontrá-lo, senhor. Ainda é
vassalo de meu pai, não é?
- Heh — disse Lorde Walder, um ruído a meio caminho entre
uma gargalhada e um grunhido. - Chamei as minhas espadas,
sim, chamei, aqui estão elas, você as viu nas muralhas. Era
minha intenção marchar assim que todas as minhas forças
estivessem reunidas. Bem, enviar meus filhos. Eu já estou há
muito para lá das marchas, Senhora Catelyn - olhou em volta
em busca de confirmação e apontou para um homem alto e
curvado de cinquenta anos. - Diga-lhe, Jared. Diga-lhe que
eram essas as minhas intenções.
- Eram, senhora - disse Sor Jared Frey, um dos filhos de sua
segunda mulher. - Pela minha honra.
- Será culpa minha que o tonto do seu irmão tenha perdido
sua batalha antes de nos podermos pôr em marcha? -
recostou-se nas almofadas e franziu as sobrancelhas, como
que desafiando-a a contestar a sua versão dos
acontecimentos. - Disseram-me que o Regicida o atravessou
como um machado atravessa queijo podre. Por que haveriam
meus rapazes de correr para o sul para morrer? Todos aqueles
que foram para o sul estão de novo correndo para o norte.
Catelyn teria de bom grado enfiado o lamuriento do velho
num espeto e colocado para assar numa fogueira, mas só
tinha até o cair da noite para abrir a ponte. Calmamente,
disse:
- Mais uma razão para que possamos chegar a Correrrio, e
depressa. Onde podemos conversar, senhor?
- Estamos conversando agora - queixou-se Lorde Frey. A
cabeça malhada e rosada dardejou em volta. - O que estão
todos olhando? - gritou para a família. - Saiam daqui. A
Senhora Stark deseja falar-me em privado. Pode ser que
tenha planos para a minha fidelidade, heh. Vão, todos,
encontrem algo de útil para fazer. Sim, você também, mulher.
Fora, fora,/ora - enquanto os filhos, netos, filhas, bastardos,
sobrinhas e sobrinhos jorraram da sala, inclinou-se para perto
de Catelyn e confessou: - Estão todos à espera de que eu
morra. Stevron espera há quarenta anos, mas continuo a
desapontá-lo. Heh. Por que haveria de morrer só para que ele
seja um senhor?, pergunto, Não o farei.
- Tenho toda a esperança de que sobreviva até os cem anos.
- Isso os irritaria, não há dúvida. Ah, não há dúvida. Bem, o
que queria dizer?
- Queremos atravessar -